Jovens evangélicos estão cada vez mais se aproximando das drogas
Tudo
começou com um punhado de anfetaminas e o desejo desenfreado de vencer
no ciclismo. Mas logo vieram o ecstasy, a cocaína, o crack, as brigas
com a família e os roubos para manter o vício que acabara de se
instalar. A cada capítulo, o drama vivido por Danilo Gouveia, personagem
interpretado pelo ator Cauã Reymond na novela Passione, da Rede Globo,
mexeu com os telespectadores e chocou a sociedade com a dura realidade
das drogas. Não é o primeiro sucesso do showbiz nacional em cima do
assunto. Há pouco tempo, o longa Meu nome não é Johnny, baseado no livro
do jornalista Guilherme Fiuza, ganhou as telas dos cinemas ao revelar
as desventuras de João Guilherme Estrella, um jovem que tinha tudo na
vida, menos limites, pelo mundo das drogas. Em comum, histórias como as
de Gouveia e Estrella alertam dramaticamente que ninguém está livre
desse perigo – nem mesmo aqueles que estão aparentemente nas situações
mais seguras, aos olhos dos homens. Johnnatan Wagner Richele Guardian,
hoje com 25 anos, sabe muito bem o que isso significa. Nascido numa
família de pastores, Johnnatan cresceu dentro de uma congregação da
Igreja do Evangelho Quadrangular, numa pacata cidade do interior das
Minas Gerais. Na adolescência, envolveu-se com o grupo de mocidade e
começou a tocar nos cultos. Tinha talento e um futuro promissor. Mas
trocou tudo pela bebida e pela droga. A ponto de terminar traficando
cocaína e crack nas ruas da cidade de São Paulo. Tornara-se um
dependente.
Para quem observa hoje o
trabalho e o envolvimento do obreiro Johnnatan com a juventude da Igreja
Internacional da Graça de Deus, onde se prepara para o pastorado, é até
difícil imaginar o que pode ter acontecido para um moço aparentemente
tão fervoroso espiritualmente ter se esfriado tanto. “As pessoas sempre
me viam nos cultos, mas não sabiam o que se passava comigo”, conta.
Repetindo o que acontece com tantos garotos que crescem numa aparente
segurança espiritual dentro das igrejas, ele estava longe da fé
fervorosa da avó, que sempre o levava aos cultos. “Eu achava tudo muito
careta e, influenciado por alguns amigos, pensava que ser crente era
viver escondido atrás de uma Bíblia”. Aos 19 anos, o rapaz deixou a
igreja. Com a “ajuda” daqueles mesmos amigos, começou a beber. Dali para
as drogas, foi um passo.
A família, no entanto, não
desconfiava de nada. Só veio a descobrir a verdade quando Jonathan foi
morar com a mãe, na capital paulista. Como o que ganhava já não era
suficiente para comprar tóxicos, começou a vender coisas de casa até ser
flagrado pela mãe. Já estava dominado pelo vício. Nos anos seguintes,
não foram poucas as tentativas de deixar as drogas, mas elas sempre
terminavam em fracasso. Bastava uma discussão que o deixasse mais
nervoso para Johnnatan mergulhar novamente naquele mundo. “Quando ficava
desempregado ou o dinheiro acabava, vinham as vozes no ouvido: ‘Por que
você não se mata? Jogue-se da ponte!’. Era terrível”, recorda.
Conseguiu sobreviver até que um de seus patrões o levou de volta à
igreja, onde recebeu a Cristo como Salvador. Logo foi incentivado a
largar o vício. Essa decisão, assim como a de romper com velhas amizades
e até mesmo um namoro, foram decisivas para que ele tivesse êxito.
Histórias de crentes que
enfrentam o pesadelo das drogas chegam a soar muitas vezes quase como
surreais. Porém, o que mais impressiona não são experiências
sobrenaturais ou as misérias enfrentadas quando a pessoa chega ao fundo
do poço, mas perceber que esses casos se multiplicam. Por si só os
números que envolvem as drogas têm dimensões infinitamente maiores do
que qualquer das pragas descritas no Apocalipse. Estima-se que, em todo
mundo, mais de 210 milhões de pessoas usem algum tipo de droga ilegal.
Dessas, de acordo com levantamento da Organização das Nações Unidas, 26
milhões enfrentam problemas sérios, como a dependência de substâncias
mais pesadas, especialmente nos grandes centros urbanos. É um problema
de saúde pública, inclusive no Brasil, onde estima-se que haja quase 900
mil usuários. Mas, quando se pensa que uma parte desse contingente é
formado por jovens filhos de crentes ou desviados das igrejas, a
preocupação é ainda maior.
O pastor Cilas, dirigente de uma
igreja pentecostal do Rio de Janeiro, pede que a reportagem omita seu
sobrenome e o nome de seu filho mais novo, de 22 anos. Mas não esconde
que vive esse drama: “Eu prego a libertação que há em Jesus no púlpito,
mas esse processo ainda não aconteceu na minha casa”, lamenta o
religioso. No fim da adolescência, o filho, que desde bebê acostumou-se a
ouvir cânticos e mensagens de fé na congregação frequentada pela
família, deixou de ir aos cultos. Alegava que queria ficar em casa e
assistir televisão aos domingos, mas quando se via sozinho, saía
furtivamente. “Pensamos que era aquela coisa de adolescente rebelde, que
um belo dia vai ter uma experiência com Cristo e mudar de vida”, diz
Cilas. O problema era muito maior – o garoto já andava com outros
rapazes mais velhos, que o iniciaram nas drogas. Passo seguinte,
abandonou os estudos e agora pouco aparece em casa, para desespero dos
pais. “Às vezes, fico semanas sem vê-lo, sem nem mesmo saber se está
vivo ou morto”, entristece-se o pastor, que admite a própria culpa.
“Tinha tanto interesse em buscar as almas perdidas que não percebi que
tinha um perdido sob meu teto.”
Relação perigosa
Não existem pesquisas nem
números que quantifiquem de fato essa relação perigosa dos jovens
evangélicos com as drogas. Mas basta analisar o perfil dos pacientes
internados nas muitas casas de recuperação para dependentes químicos
espalhadas pelo Brasil para perceber que vários deles têm ou tiveram
alguma relação anterior com o Evangelho. Essa constatação se repete nas
ruas. No Rio de Janeiro, missionários que trabalham nas favelas costumam
relatar encontros em que traficantes pedem orações. “Cansei de conhecer
traficantes filhos de crentes”, confirma o missionário Pedro Rocha
Júnior, de Jovens com uma Missão, a Jocum. Atualmente no Cairo (Egito),
ele passou mais de uma década pregando o Evangelho e prestando serviços
sociais no Morro do Borel, zona norte da capital carioca, num tempo em
que a comunidade era dominada pelo narcotráfico. “Muitos dos traficantes
tinham nomes bíblicos, como Ezequiel, Davi, Josué. Gente criada na
igreja, mas que depois pulou fora e caiu no vício.”
Em São Paulo, na chamada
Cracolândia – área da região central da cidade que ganhou fama pelo
tráfico de drogas e pela prostituição, além dos delitos praticados a céu
aberto e em plena luz do dia –, meninos e meninas que um dia cantaram
em corais juvenis de igrejas agora não passam de moribundos que vagam
pelos becos alucinados pela próxima dose. “É assustador ver que tanta
gente com quem trabalhamos saiu de igrejas e provêm de famílias
evangélicas. Seja por terem uma religião apenas nominal ou por
experimentarem alguma frustração com o sistema, foram presas fáceis para
a tentação das drogas”, explica a advogada e missionária Selma Maria de
Oliveira, de 33 anos. Ela integra a Missão Cena, organização
interdenominacional que trabalha na região da Cracolândia. Sua sede,
localizada próximo dali, é um refúgio para quem já não pode contar com
mais nada nem ninguém. A cada terça-feira, centenas de moradores de rua e
viciados dirigem-se à base para comer, tomar banho, cortar o cabelo e
trocar de roupa. Lá, encontram abrigo temporário, mas que pode se
transformar em permanente: após passar por uma triagem, os usuários de
drogas têm a possibilidade de conseguir tratamento na Fazenda Nova
Aurora, centro de recuperação que a missão mantém em Juquitiba, no
interior paulista.
A impressão dessa alta presença
de ex-crentes entre os viciados foi partilhada pelo repórter de
CRISTIANISMO HOJE. A revistaacompanhou na região central de São Paulo o
trabalho de uma equipe de obreiros da Cena. Conversando com usuários de
drogas como o crack, é possível perceber a origem e formação evangélica
de diversos deles, como um rapaz que falava da Bíblia para moradores de
rua. Antes, líder do louvor numa igreja pentecostal, ele agora se tornou
traficante. Mesmo pedindo para não ser identificado, falou um pouco
sobre sua história. Ainda guarda do Evangelho a certeza de que há perdão
e restauração em Cristo, mas, por enquanto, diz não ter forças para sai
do fundo do poço. “Tenho esperança de que um dia voltarei para os
caminhos do Senhor”, diz. Mesmo assim, garante, fala do amor de Jesus
aos outros. “Até ensino o pessoal a cantar alguns hinos”, diz, sorrindo.
“Há pelo menos quatro fatores
que podem explicar o vício entre os jovens: o físico, o psicológico ou
emocional, o social – e também o espiritual”, explica a psicóloga Gisele
Aleluia, professora do Instituto de Integração da Família (Inif) e de
pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de
Janeiro. Coautora do livro Drogas.sem (Editora BestSeller), em que
orienta como ajudar alguém que pretende deixar o vício, ela diz que os
adolescentes são presas fáceis quando buscam reconhecimento entre os
amigos e acham que as drogas os ajudarão a ser mais populares ou vencer a
timidez na hora de namorar. Já outros, na ponta oposta, são por demais
curiosos e autossuficientes para achar que correm riscos. “A mesma falta
de perspectivas pode ser encontrada entre aqueles inseguros, que vão
atrás de alívio para seus problemas”, aponta.
Pesquisa recente mostrou que um
em cada quatro estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública
brasileira já experimentou algum tipo de droga, além do cigarro e das
bebidas alcoólicas. Num desafio ao bom senso, experimentam esse tipo de
substância cada vez mais cedo. Há dez anos, a média de idade para o
primeiro contato era de 14 anos. Agora, não passa de onze. As pesquisas
também revelam que, devido à exibição na televisão dos efeitos
devastadores dos entorpecentes na vida de viciados e às campanhas de
prevenção, a juventude brasileira sabe o tamanho desse problema. Ainda
assim, boa parte dela não consegue ficar longe de um baseado de maconha
ou um papelote de cocaína.
“No meio evangélico, some-se a
tudo isso o ambiente repressor de muitas igrejas. Ao sair desse sistema,
o jovem está vulnerável e despreparado”, continua a psicóloga Gisele.
“Justamente por conta dessa tolerância para com os de fora e
intolerância para os de dentro, a igreja tem facilidade para lidar com
quem pede ajuda e dificuldade para auxiliar alguém já recuperado que
recai”, diz. Membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos
(CPPC), ela lembra o caso de um de seus pacientes. Filho de pastor,
hoje, ele luta contra o vício. “A pessoa quer mostrar sua rebeldia
usando tóxicos. No caso desse rapaz, ele me confessou que seu pai o
havia prendido a vida inteira. Finalmente, quando conseguiu sair, saiu
demais.”
Espiritualidade Terapêutica
Do ponto de vista da ciência, as
drogas são uma doença. Um problema sério, capaz de acabar com
relacionamentos e inviabilizar o estudo e o trabalho – e que precisa do
devido acompanhamento e de soluções à altura. Mesmo assim, até na área
médica já existe um consenso de que a espiritualidade tem um papel muito
importante para prevenir e tratar a dependência química. No mais amplo
estudo realizado no Brasil sobre o tema, de autoria de pesquisadores da
Universidade de Campinas (Unicamp), mais de 16 mil estudantes foram
envolvidos. A conclusão foi de que a religiosidade é fator importante de
prevenção ao vício.
Essa também é a opinião dos
órgãos governamentais responsáveis pela política nacional de combate às
drogas. “As instituições religiosas são fundamentais para minimizar o
impacto do uso das drogas na população. Ter fé auxilia no enfrentamento
do estresse e de situações difíceis na vida, que são fatores de risco
para o uso dessas substâncias”, defende Paulina Duarte, secretária
adjunta da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad). Dentro da estratégia
de priorizar a prevenção, um dos principais projetos da instituição é o
curso Fé na Prevenção, desenvolvido para capacitar os religiosos a
trabalhar na área. O objetivo era chegar ao fim de 2010 com 200 mil
pessoas treinadas.
“Valores espirituais protegem a
pessoa das drogas. Por isso, torna-se tão importante falar a língua do
jovem”, faz coro Gisela. Acontece que normalmente famílias e igrejas que
enfrentam o perigo das drogas com seus jovens têm dificuldade para
fazer a pressão na medida certa e ao mesmo tempo manter o mínimo de
diálogo. Na lacuna, quem entra com força são os centros especializados
no acolhimento e tratamento a viciados. Não por acaso, a maior parte das
casas de recuperação são evangélicas ou católicas, sendo procuradas
também por quem não tem religião. Mas a demanda é grande demais,
inclusive por parte das igrejas e famílias evangélicas que as veem como
última esperança. Só a Federação de Comunidades Terapêuticas Evangélicas
do Brasil (Feteb) representa cerca de 300 instituições do gênero no
Brasil. Quem atua no setor quer fazer mais. “Para prestar um serviço
relevante à sociedade precisamos nos qualificar, mas também melhorar
nossa estrutura física”, diz o presidente da entidade, pastor Wellington
Vieira. “Um primeiro passo é o reconhecimento dos governos federal,
estaduais e municipais ao nosso serviço e parcerias que nos permitam
adaptar-nos às exigências da Vigilância Sanitária para o funcionamento
das clínicas”, reivindica.
A fé, contudo, não faz milagres
sozinha. “Não adianta somente se dizer evangélico. Se a família que
frequenta a igreja é disfuncional, a chance de seus filhos pararem nas
drogas é alta”, constata o pastor Carlos Roberto Pereira da Silva, do
Desafio Jovem de Rio Claro (SP). Desde 1998, a casa é a representante
oficial do Ministério Desafio Jovem Internacional, criado quarenta anos
antes nos Estados Unidos pelo pastor David Wilkerson, cuja história está
registrada no best-seller A cruz e o punhal (Editora Betânia). Na
época, Wilkerson, pastor de uma Assembleia de Deus no interior do país,
mudou-se para Nova Iorque a fim de evangelizar gangues que disputavam o
poder nas ruas da metrópole.
“O tratamento é melhor
estruturado e mais complexo agora”, destaca Carlos, “mas, ainda hoje, a
filosofia de trabalho permanece a mesma. Temos uma das melhores
porcentagens de recuperados no país, com mais de 70% de sucesso. Nos
Estados Unidos, o índice chega a 86%”. Ele é parte dessa estatística, já
que, no passado, foi viciado e chegou a roubar e traficar drogas. Com
conhecimento de sobra, o pastor não tem ilusões em relação ao assunto.
“Infelizmente, muitas igrejas querem lidar com viciados sem o mínimo de
estrutura. Não se tira alguém das drogas com uma simples oração ou unção
com óleo”. Mas sabe que o Evangelho de Jesus continua tendo poder de
mudar vidas. “Acredito que a Igreja brasileira continua sendo um lugar
terapêutico, mas é preciso voltar a tocar a trombeta do despertamento.”
Johnnatan, o futuro pastor que
abre a reportagem, tem feito isso. Exceção à regra, ele superou o vício
sem precisar ser internado em uma casa de recuperação. Mas sabe que
precisa vigiar. As recaídas são das maiores ameaças a ex-viciados, e ele
já passou pela experiência. “E não quero repetir nunca mais”, afirma.
Consciente da situação, hoje Johnnatan ajuda a tirar outros jovens do
submundo das drogas. Quase toda semana, visita instituições de
atendimento, onde testemunha e encoraja os internos a continuarem o
tratamento. “Se eu consegui, você também consegue”, costuma repetir para
rapazes e moças – muitos dos quais, como ele, deixaram para trás os
tempos de comunhão com o Senhor e os irmãos para entrar num caminho nem
sempre com retorno.
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